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|Album Review|

Tame Impala - Currents

9/10 



Os Tame Impala apareceram em 2008 com o seu EP de estreia e o single “Half Full Glass Of Wine”, assumindo-se como o nome que trouxe de volta o psicadelismo à indústria musical, estilo este que teve o seu auge nos anos 60 e, principalmente, 70. O projeto de Kevin Parker era uma verdadeira lufada de ar fresco para a música rock, que nos últimos anos tem criado cada vez menos nomes de sucesso. A música dos australianos suava atual e ao mesmo tempo remetia-nos para as décadas já referidas, conquistando algum hype que os dois álbuns seguintes aumentaram. Êxitos como “Elephant”, “Feels Like We Only Go Backwards” ou “Solitude Is Bliss” levaram a que os Tame Impala se tornassem uma das bandas mais requisitadas em festivais, devido à grande fan base que criaram, mas também devido a fantásticas receções por parte da imprensa especializada.
Ao terceiro álbum, o cérebro por trás dos Tame Impala, Kevin Parker, decidiu reinventar a banda, apesar de saber que poderia perder fãs que se dedicam mais ao rock e às guitarras. Currents nasce, assim, contra a corrente dos australianos, mas ao mesmo tempo é o álbum que os Tame Impala tinham de criar. O “abandono” das guitarras pelos sintetizadores não abriu lugar a riffs de guitarra que os Tame Impala já tinham mostrado dominar, mas deram lugar a um conjunto de influências que resultam extraordinariamente em Currents. Falamos de géneros como r&b e hip-hop, mas também de synthpop e new wave. Este parece ser mesmo o ano em que a eletrónica passa a fazer parte do quotidiano da música psicadélica, pois para além de Tame Impala, outros artistas como os Unknown Mortal Orchestra fizeram este exercício.

“Let It Happen” apareceu surpreendentemente na internet, quase que como um presente de Kevin Parker aos seus fãs, e é também a faixa que abre este trabalho. Batida acelerada, sintetizadores ligados, jogo de repetições com uma métrica constante e “Let It Happen” está criada. É precisamente nesta música que Kevin Parker, com a sua dócil, mas também anasalada, voz, entoa uma das frases de maior destaque de Currents: “And if I never come back/Tell my mother I'm sorry”. Este excerto representa a continuidade no espírito solitário de Kevin, que tem como melhor exemplo as frases: “Company's okay/Solitude is bliss/There's a party in my head and no one is invited” de “Solitude Is Bliss”. “Let It Happen” é também uma falsa promessa do que acontece no resto do álbum. Esta música, apesar dos seus quase 8 minutos, é uma música acelerada, em loops infindáveis, com uma despreocupação e um “deixar-andar”, que Kevin não volta a repetir. Na generalidade das restantes faixas de Currents, falamos de músicas desacelaradas, com uma percussão menos ritmada e mais pausada. “Nangs” é a prova disso mesmo. É o primeiro dos três interlúdios deste álbum, juntamente com “Gossip” e “Disciples” – esta última chega a ser um dos singles – e fica a sensação de que este é um dos melhores momentos do terceiro álbum dos australianos.

“The Moment” volta a acelerar um pouco o ritmo de Currents, mas sucede-lhe “Yes, I’m Changing”, que volta a colocar serenidade e acalmia neste trabalho, completando muito bem a música que lhe antecede. “Yes, I’m Changing” parece ser o grito de paz e amor de Kevin Parker, que assume que está a mudar e que “há um novo mundo à porta” para ele, mas também para a sua “girl”.

Com alguns segundos de um “ruído melódico” começa “Eventually”, que é a música que melhor encaixaria nos trabalhos anteriores, devido ao uso de guitarras, que aqui são complementadas pelos sintetizadores. Esta é uma música que carrega alguma emoção, pois Kevin parece se preparar para se despedir de algo, eventualmente da sua “girl”. “Gossip” remata este sentimento emocional com a sua calmia e misteriosismo, que à semelhança de “Nangs” constitui um momento de destaque.

“The Less I Know The Better” carrega uma falsa felicidade, no meio de tanto isolamento de Parker. A letra é de uma certa leviandade, à semelhança de algumas músicas pop e constitui um dos momentos de menor destaque do álbum.

“Past Life” é, sem dúvidas, a faixa mais surpreendente deste LP, devido à sua sonoridade de spoken-word presente em músicas rap e hip-hop, que é, brilhantemente, rematada com o refrão trippy desta música. A música fala de uma rapariga, “de uma vida passada” – metáfora com o tempo que passou e com as mudanças que Kevin viveu – que talvez mantenha o mesmo número de telefone e acaba com sons de telefonia e é concluída com um inesperado “Hello?”. Talvez Kevin Parker não esteja assim tão só, e talvez ate lhe seja melhor passar esta fase e deixar de esperar pela rapariga em questão, como refere em “Disciples”, música carregada de uma felicidade primaveril, que é rapidamente interrompida por uma tristonha “Cause I’m a Man”, single de maior expressão de Currents. A tristeza e imaginária discussão assumem este single, que tem um refrão de uma ironia bem trabalhada e uma letra com um jogo de palavras, coo se verifica neste excerto: “I have no voice if I don’t speak my mind”.

“Reality In Motion”, “Love/Paranoia” e “New Person, Same Old Mistakes”, são músicas algo semelhantes musicalmente, mas a segunda referida atinge uns verdadeiros momentos de glória quando Kevin, com os seus falsetes canta “I've heard those words before/Are you sure it was nothing/Cause it made me feel like dying inside”. Kevin, nesta música sobre a dicotomia amor e paranóia acaba por pedir desculpa à tal rapariga, preparando-se para referir que se sente como uma nova pessoa, apesar de lhe dizerem que os erros são os mesmos.

Currents é um álbum de repetições, loops e de uma construção inteligente com várias camadas, que monstra que para além de saber criar música, Kevin Parker sabe liderar uma grande banda e consegue produzir um enorme álbum. 

Músicas a ouvir : "Let It Happen", "The Moment", "Eventually", "The Less I Know The Better"; "Past Life".

Texto: Eduardo Antunes

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