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|Album Review|

Radiohead - A Moon Shaped Pool

 9/10 





A este ponto, não será necessária uma grande introdução ao se falar de Radiohead. No entanto, se viveu numa tribo durante os últimos 20 anos e nunca ouviu falar desta banda, Radiohead revelou-se como um dos mais revolucionários projetos da atualidade. Já contam com muitos álbuns na sua discografia a serem considerados clássicos e aqueles que ainda não têm esse titulo, espera-se que resistam ao teste do tempo e, progressivamente, se revelem intemporais. Assim, é com todo o entusiasmo que se recebe a notícia em 2015 de que está um novo álbum a caminho. Progressivamente, então, ao longo do ano, saltando entre confirmações e incertezas, as expectativas crescem. Chegou, por fim. A 8 de março é editado A Moon Shaped Pool e este responde a todas as expectativas que podiam ter sido criadas pelo fandom desta banda irreverente.

Como toda a discografia da banda, o álbum é na sua essência eclético, combinando diferentes fases da discografia da banda. Em termos conceptuais, é numa expressão de frieza quebrada, do momento da queda de uma armadura de seriedade que o álbum se sustenta, numa nudez desenvergonhada e libertadora. Ao contrário do que se pode pensar, contudo, é um álbum de melodias inteligíveis e calmas, mas que não falham por essa simplicidade e leveza em transportar uma enorme carga emotiva. Acaba por ser uma descrição dum momento de conflito intenso e a sua reconciliação, representado numa evolução constante de estado de espirito, de faixa para faixa. "Burn The Witch", infelizmente, está fora desta estética do álbum. Apesar de interessante, o principal single do álbum e o seu academismo não revelam nenhuma relação com o resto das faixas, para além de ter uma sonoridade essencialmente básica, sem o impacto anestésico a que Thom Yorke me habituou. Em contraste, "Ful Stop", apresentada ao vivo em 2012 e aproveitada para AMSP (como muitas das faixas neste álbum), foca o pico de uma discussão intensa, utilizando um ritmo soturno como base, ao qual é acrescentado um jogo de vocais monocórdicos e pequenas exaltações agridoces. A mágoa acaba por ser referida, naturalmente: "Daydreaming", com as suas características composições minimalistas e cortes de voz que vão buscar muito a Kid A, e "Decks Dark", com coros desta vez, são as mais dedicadas canções a trabalhar o sofrimento. "Glass Eyes", de certa forma, vem como resposta a isto. Os dedilhados e chorosos distorcidos desta música não fazem lembrar nada mais do que o desesperado choro provocado por tudo o que antecede a faixa. E claro, "...broken hearts, make it rain...", em "Identitik" segue a estética. 

Ainda antes dos dez minutos finais do álbum encontra-se a solução. "The Numbers" apresenta na tracklist uma nova esperança, um caminho entusiasmante para uma resolução. Tanto que este crescendo tem nada menos que uma orquestra para intensificar a ambição que toda a melodia transmite. "Present Tense" poderia ter sido o final do álbum. A angelicalidade desta faixa mostra que houve efetivamente uma solução para o conflito, que agora se vê mais pessoal que social, que todo o álbum mostra. Existe salvação e aceitação. Dedilhados, outrora deprimentes, agora dançantes e apaixonados, enchem a música com o acréscimo de um coro que tem todas as mesmas características. Numa beleza de cortar a respiração, que não pode ser mencionada sem transpor para a eloquência, os Radiohead resolvem o conflito pessoal aparentemente irresolúvel de todos os seus álbuns.

Mas não foi o final, apesar de tudo, pois ainda há mais duas músicas. A penúltima canção do álbum é meramente uma preparação pacífica para o que a sucede. Isto é, a tão desejada adaptação ao estúdio de "True Love Waits". A banda está nua. Encontram-se o mais expostos e frágeis que se apresentaram alguma vez na sua discografia e é magnífico. Há perturbação, mas parece existir paz apesar de tudo. Os Radiohead aceitam a sua dor. Acaba aqui a viagem e é possível que só tenhamos outra parecida com esta quando em 5 anos Thom Yorke e Greenwood recomeçarem a negar os anúncios dos produtores da banda de um novo projeto. Até lá, soframos com esta grande obra.

Músicas a ouvir: “Present Tense”, “Identitik”, “The Numbers”, “True Love Waits”, “Ful Stop” e “Daydreaming”


Texto por: Pedro Maia

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