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Rodrigo Amarante

TEATRO AVEIRENSE, 1 DE JULHO

Rodrigo Amarante @Teatro Aveirense

No primeiro dia do mês de julho, o brasileiro Rodrigo Amarante pisou o palco do Teatro Aveirense para presentear o público com um concerto seu num modo cru e descomprometido, sem qualquer filtros na sua música que, assim, era apenas composta pela sua voz e pela guitarra, substituída por vezes por um piano.
Com um andar humilde, Rodrigo Amarente rapidamente fez questão de estabelecer uma ligação com o público presente, referindo que ainda sentia o "sufoco" do dia anterior (a seleção portuguesa de futebol tinha jogado na noite anterior para o Euro 2016), sendo este um perfeito exemplo da animação que Amarante trouxe a Aveiro, que contrastava com a solidão e tristeza das músicas, natureza que o brasileiro reconhece colocar nas suas composições, defendendo que é o método que tem para ser muito feliz, pois assim a solidão escoa toda para nós, os ouvintes.

No seu jeito alegre e humilde à brasileiro, ia pedindo desculpas pelo seu nível de português e também por falar "um pouquinho" antes das suas músicas. Num desses momentos explicou a lógica conceptual de duas músicas do trabalho que nos veio apresentar, o disco Cavalo, de 2014. Falamos das músicas "The Ribbon" e "I'm Ready", que assim sendo, contam dois pólos distintos da mesma história. A primeira fala da retrospetiva de um soldado que morre em combate, enquanto que a segunda retrata a visita gloriosa mas também obscura, dos companheiros de combate do soldado morto à casa da mãe deste para a entrega da sua medalha de mérito militar. E é neste estado de reflexão profunda que as músicas nos deixam. Sente-se uma melancolia e uma solidão em cada um dos espectadores, mas ao mesmo tempo, se sente uma admiração extraordinária por quem vemos no palco e pela sua capacidade de mexer nas nossas emoções através de canções simples, mas que carregam uma perspetiva muito mais profunda.

No meio de tanta humildade e sincero fascínio com os constantes aplausos do público, que Rodrigo revelava estar "enrolando porque não queria que acabassem", houve lugar à apresentação, quase integral, do seu único álbum editado a solo, mas também houve lugar a uma versão desconstruída da sua única música "por encomenda" (referindo-se a "Tuyo", genérico da série Narcos da Netflix) e à apresentação de músicas novas, ou pelo menos "novas" para nós, o público, segundo Rodrigo Amarante, quer acompanhado da sua guitarra cor de marfim ou pelo piano. Numa dessas músicas, podia-se perceber que Rodrigo Amarante falava de um fim de uma relação amorosa e de um consequente fim do mundo, ou pelo menos, do fim do mundo como o conhecemos. 

E é com esta sua capacidade de nos assombrar quer pelo mais negativo, como pelo mais positivo da vida, que escutamos atentamente o que nos tem para contar durante a mais de uma hora em que esteve neste palco, onde foi também possível conhecer a lógica que levou à escrita e composição de uma das suas músicas mais reconhecidas, "Tardei", que Rodrigo explicou ter composto ao pensar em músicas de marcha de soldados, que os fazem continuar a marcha e a "soltarem-se" das dificuldades. 

Foi assim uma noite de grande beleza e de grande admiração, de ambas as partes, a que se pôde assistir neste dia 1 de julho, onde a subtileza do antigo membro dos Los Hermanos e dos Little Joy foi exposta, mas onde também o seu espírito animado e de contentamento com a vida foi possível de respirar (ficou até prometida uma ida a Trás-os-Montes, a pedido de um amigo seu, zona portuguesa cuja difícil tradução apelativa para o inglês foi também discutida pelo brasileiro neste seu concerto).

Texto: Eduardo Antunes

Fotografia: Ricardo Jorge (https://www.flickr.com/photos/ricardosjorge)

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