Artigos Glass Journal

|Album Review|

Solange - A Seat At The Table

 9/10 


Sim, é verdade Solange é a irmã mais nova de Beyoncé, aquela que é, provavelmente, a maior estrela pop da atualidade. Não, não é de todo esse o motivo do seu destaque.


Solange Knowles tem uma vasta experiência na escrita de canções para estrelas pop, mas na sua carreira a solo, nunca se destacou muito, tendo tido algumas críticas favoráveis com o EP True, que lançou em 2012, e que musicalmente deixava presente uma mudança no estilo de Solange que amadurece com este A Seat At The Table. Dito isto, torna-se mais fácil entender o surgimento mediático deste álbum de Solange e de toda a estética quer musical, quer nos vídeos que já apresentou e que têm sido também muito elogiados. 



De facto, este parece ser um álbum muito pensado e ponderado e que culmina como manifesto da revolta que Solange sente devido à descriminação e xenofobia que os afro-americanos continuam a sofrer, em pleno século XXI, mas também devido ao menor papel que ainda é dado à mulher na sociedade ocidental. A Seat At The Table é a oportunidade muito estruturada e delineada que Solange teve de dizer verdadeiramente “enough is enough!”. Mas Solange não o diz aos gritos, nem de um modo algo assustador, fazendo sim um álbum com uma maturidade acima da média, onde a calma reina na sua voz, mas que em cada palavra traduz um sentimento obscuro em si mesmo, a que ninguém com o mínimo de bom senso deve ficar indiferente. 


Há neste álbum um bom punhado de canções que refletem este sentimento que refiro acima… Em “Weary”, Solange mostra-se consciente “of the ways of the world”, no que toca à hierarquização social baseada no género, etnia, classe social ou sexualidade. Com “Mad” defende que tem toda a razão em estar furiosa com tudo o que acontece à sua volta (nomeadamente os assassinatos controversos, para dizer o mínimo, de membros da comunidade afro-americana). “F.U.B.U.”, fazendo alusão à marca de vestuário com impacto na cena do hip-hop americano nos anos 90, é um verdadeiro hino de emancipação, no qual Solange diz “don’t feel bad if you can’t sing along, just be glad you got the whole wide world”, dado que o refrão da música contém a intocável palavra começada por “n”, utilizada para descrever os afro-americanos de uma forma depreciativa. O maior exemplo de defesa dos afro-americanos acaba por ser “Don’t Touch My Hair”, onde a voz de Solange assume uma emoção melódica, enquanto canta sobre o seu cabelo como o símbolo da opressão dos afro-americanos, focando-se na estética ocidental que lhes é impingida.


A Seat At The Table é um álbum paradoxal, no sentido que tanto parece acessível como é bastante complexo, abrindo-se também lugar a bonitos interlúdios inteligentemente construídos, a colaborações com diversos artistas – Lil Wayne, Kelela e Sampha, só para citar alguns – e onde também se abre lugar a temas românticos mas hipnotizantes como “Cranes In The Sky”, que foi escrito há 8 anos, o que demonstra que esta maturidade e consciência não é de todo de agora, mas que este foi o tempo para que esta obra chegasse ao mundo. E ainda bem que chegou, a tempo de ser sem dúvida um dos álbuns do ano e, espero, que a tempo de mudar mentalidades.


Músicas a ouvir: “Don't Touch My Hair”, “Cranes In The Sky”, “F.U.B.U.”, "Weary" e “Rise"

Texto por: Eduardo Antunes

Sem comentários:

'; (function() { var dsq = document.createElement('script'); dsq.type = 'text/javascript'; dsq.async = true; dsq.src = '//' + disqus_shortname + '.disqus.com/embed.js'; (document.getElementsByTagName('head')[0] || document.getElementsByTagName('body')[0]).appendChild(dsq); })();
Com tecnologia do Blogger.