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Elza Soares + Aline Frazão - Sons Em Trânsito

FESTIVAL SONS EM TRÂNSITO, 25 DE NOVEMBRO

Não há melhor forma de descrever o que aconteceu na noite de 25 de novembro, em Aveiro, do que com as próprias palavras de Aline Frazão, que nos disse que o que iria acontecer de seguida naquele palco iria "mudar as nossas vidas". Referia-se obviamente ao espetáculo montado pela "mulher do fim do mundo", a estrondosa Elza Soares, melhor cantora do milénio de acordo com uma votação da BBC. Mas antes de assistir a esse promissor concerto, assistimos a uma hora de Aline Frazão, no arranque deste dia do Festival Sons Em Trânsito, que regressava assim à ação depois de alguns anos sem se realizar.

Com o seu tom honesto e humilde, apresentou-se Aline Frazão no palco do Teatro Aveirense acompanhada apenas de duas guitarras e de um kisanje (também referido como mbira ou kalimba), com o qual tocou uma das suas músicas, naquele que foi um dos pontos altos do seu concerto, onde a sua voz e as palavras de inspiração na raiz angolana eram rainhas, e marcavam o tom desta hora de concerto antes da chegada da diva brasileira do "fim do mundo".

De facto, a noite era de Elza Soares, a "mulher do fim do mundo", que apenas no deixou admirá-la de longe. De qualquer modo, soube-nos a muito. Elza Soares, apesar das debilidades físicas e da sua idade (conta já com 79 anos, segundo os registos mais fidedignos) não apresenta um mero concerto, mas sim um verdadeiro espetáculo. Começa por nos dar as boas vindas e agradece o facto de ser bem recebida neste "planeta fixe". De facto, o público de Aveiro recebeu muito bem a rainha musical, que apesar disso pedia "mais barulho" e queria ouvir toda a gente a gritar. Sim, estou a falar de uma verdadeira senhora de 79 anos, mas também estou a falar da autora de um dos álbuns mais brutais e de maior contestação ao status quo, feitos nos últimos tempos. E sim, Elza Soares conta já com 60 anos de carreira e este é o seu primeiro disco de originais. Parece impensável esta contabilização, mas Elza Soares mais uma vez demonstra que não é uma merca cantora. É uma artista do passado, mas também do presente e, sobretudo, do futuro. 

Apesar de sentada numa poltrona no alto de um grande conjunto de degraus, qual Cleópatra qual quê, o espetáculo foi tudo menos parado. A banda que acompanha Elza merece também fortes palavras de apreço, pela capacidade de animarem uma sala e de reproduzirem os sons de um dos álbuns mais badalados deste ano. Mas Elza Soares e companhia não se ficam por aí. Em "Benedicta", música que fala da vida marginal de uma transsexual, aparece um cantor que acompanha Elza nestes concertos, incorporando de forma apaixonada a personagem, naquele que foi um dos momentos altos desta noite. 

O tempo foi passando, e o imaginário da "mulher do fim do mundo" foi sendo cumprido, culminando num apocalítico final, no qual todos os membros da sua comitiva se apresentam de pé a admirar Elza, enquanto luzes incadeantes vão cegando tudo e todos, exceto, lá está, a "mulher do fim do mundo". E quando pensámos que não veríamos mais de Elza, eis que as cortinas se voltam a abrir, e o samba imerge o Teatro Aveirense, passando-se por alguns dos temas clássicos da brasileira, para delícia dos presentes.




Texto: Eduardo Antunes

Fotografia: Ricardo Jorge

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