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Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner & James McAlister  - Planetarium

 9/10 



Planetarium é um álbum de Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James McAlister e sim, chega a ser exaustivo enunciar os autores desta peça. Este super grupo juntou-se há uns anos atrás, após um pedido do Muziekgebouw Eindhoven, um museu holandês. Pedido este direcionado ao compositor clássico Nico Muhly, que rapidamente o alastrou a Bryce Dessner (dos The National) e a Sufjan Stevens, que convidou James McAlister para criar as batidas.



São 76 minutos de música difíceis de explicar sucintamente. Uma tentativa pode ser: “uma epopeia musical que percorre a mitologia por detrás dos planetas e demais entidades celestiais do nosso sistema solar”. Fica mais explícito? É verdade que este conceito megalómano pode parecer difícil de imaginar musicado, mas aqui está a prova de que, com mestria, é possível. Se há adjetivo a que associo verdadeiramente esta obra é mesmo esse: “mestria”. E é somente com esta mestria que Planetarium consegue dar-nos o dom que nos dá: a omnipresença. Simultaneamente nos sentimos a percorrer os corpos celestiais, flutuando pelo vazio e pelo imenso, mas também nos sentimos de pés bem assentes na Terra, seja onde estamos fisicamente, ou numa viagem de memórias que apenas a capacidade letrista de Sufjan Stevens consegue refletir (veja-se – e oiça-se – vários exemplos em Carrie & Lowell ou em Illinois). 


Numa megalómana obra como esta, torna-se sempre difícil de individualizar as músicas em vez de as considerar apenas como um todo, como uma experiência. Há contudo, que o fazer, pela qualidade das mesmas. O álbum começa com um verdadeiro exemplo da mescla de mitologia celestial com o cunho pessoal de Sufjan, através de uma ode ao 8º planeta do nosso sistema solar. “Neptune” é assim uma emocionante música na qual se fazem pedidos aos mares e às marés, já que Neptuno é o equivalente romano a Poseidon, que na mitologia grega tem o domínio aquático. A música que se segue espelha o poder e magnitude de um outro planeta. Falo de “Jupiter”, carregada de pequenas passagens mitológicas e religiosas por detrás de Júpiter (Zeus), mas também com simbolismos físicos, e que, através do bom uso do vocoder e das distorções vocais, culmina num brilhante e agigantado crescendo, que necessita de uma nova música (um interlúdio de 30 segundos) após esta, para apenas poder assentar a poeira levantada. Segue-se “Venus”, uma música sobre a deusa do amor, e que tem uma instrumentalização de base minimalista e algo intimista. A música está alicerçada em pormenores sobre o misticismo de Vénus, e é extrapolada para os desabafos amorosos de Sufjan, nos quais se inclui a sua primeira exploração “mítica e sexual” numa colónia de verão metodista. Sufjan coloca-se numa posição de diálogo direto com a deusa, pedindo-lhe perdão e que possa ser inundado de amor, mais uma vez, num dos momentos mais emotivos deste álbum. Curiosamente, depois de “Venus” segue-se “Uranus”, um "voto de confiança" de Sufjan no seu destino, já que segundo a mitologia romana, Vénus nasce do sangue da castração de Úrano. 


“Mars” coloca par a par a guerra e o amor, e soa a uma injeção de inquietação musical, na qual nos sentimos parte da personagem. Parece ser mesmo essa a vontade de Sufjan: sentirmos uma verdadeira irritação dentro de nós, já que cada um de nós é aqui entendido como o causador da guerra, ao contrário de uma primeira impressão (a música começa com “In the future, there will be no war” que se transforma num “In the future, there will only be war”), mas que cada um de nós pode também ser um propagador deste amor universal.


Já na reta final desta viagem, encontram-se 3 músicas de destaque. “Saturn” é um grito de revolta contra o mal deste mundo sob a forma de esteroides eletrónicos. Sufjan assume o papel de Cronus (Saturno), supremo deus até destronado por Zeus que, reza a história, após a sua derrota caiu numa espiral negativa e devorou todas as suas crianças com receio do seu futuro. Cronus é assim um deus negativo, dono de toda a escuridão. “Earth” é uma épica viagem de 15 minutos que passa pela música ambiental, pelo intimismo registado anteriormente em Planetarium guiado pelos vocais de Sufjan e que rebenta numa mantra com um ar de doomsday em loop, com toda a distorção que Sufjan conseguiu juntar (“Run, mission, run. Before we arrive” é o grito de ordem). “Mercury” marca o fim desta viagem. Viagem esta que abandona os ares da eletrónica e assenta apenas no acústico, numa bonita e introspetiva melodia protagonizada pelo piano de Nico Muhly e pela atmosférica guitarra de Bruce Dessner. Mercúrio é o deus mensageiro, e é sobre todo o que precisa de ser sonhado e comunicado que Sufjan nos fala. 


De facto, esta epopeia espacial que dá pelo nome de Planetarium não é perfeita, mas este mundo e todo o sistema solar, também não o são. A mensagem final que nos parecem deixar aparenta ser de que para que a perfeição seja maior, talvez seja nosso o papel de, tal como Sufjan aqui tenta, encarar a pele destes deuses e fazermos o seu trabalho da pequena, mas melhor, forma que conseguirmos, transformando este caos em que vivemos na construção sustentável de um bem maior.


Músicas a ouvir: “Neptune”, “Jupiter”, “Venus”, MarsEarth e Mercury


Texto por: Eduardo Antunes

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