Artigos Glass Journal

Desilusões do 1º Semestre de 2018



A primeira metade do ano passa, e os primeiros sinais de balanços vão aparecendo um pouco por todo o lado. Tipicamente, por esta altura, lançamos uma lista de 20 ou 30 álbuns, sem quaisquer comentários, que consideramos estarem na corrida pelo galardão de melhor álbum. Este ano, decidimos dar a volta ao exercício. Apenas vamos fazer duas pequenas listas. Esta desvenda as desilusões deste pedaço de ano. Outra revelará as maiores surpresas pela positiva nestes 6 meses. Pois bem, não significa, portanto, que sejam listas dos absolutos piores e melhores álbuns desta metade de 2018. É uma lista que parte muito da história de cada artista e do percurso artístico, assim como a relação da nossa redação com essa história, esse artista e, enfim, estes discos.


Chvrches - Love Is Dead

Se, para muitos, era difícil Chvrches desiludirem no que quer que fosse, tenho que dizer que sempre tive um pequeno lugar no meu coração para este trio escocês de quem se ama ou odeia. Este era um lugar que me permitia dançar ao som das batidas mais pop e menos profundas [leia-se "deep"] de toda a discografia que cabe no meu gosto musical. Olhava, portanto, com alguma curiosidade para este novo álbum. Aos sinais de tanta amizade com os Paramore (banda que tentou dar um twist "indie-pop" à sua história de emo pop) fui olhando com desconfiança, mas foi apenas quando Love Is Dead chegou que a desilusão se consumou. Os próprios afirmaram que neste disco procuraram fazer um álbum "mais pop" (sim, ninguém está enganado, os Chvrches já eram do mais pop possível). Eu traduziria isto numa procura pela repetição louca nas rádios. E é nessa lógica que utilizam fórmulas comerciais na procura de singles megalómanos. O resultado é um fracasso sobre a forma de canções tão mastigáveis como aquela "chicla" de 5 cêntimos comprada no café do senhor José. "Miracle" é assinada pelos Chvrches, mas permitiria perfeitamente a assinatura de qualquer "monstro pop" sem caráter distintivo da atualidade: Katy Perry, Taylor Swift, Rita Ora, o que seja, não me lembro de muitos mais, de facto. Há, com certeza, algumas canções bem produzidas e que, por isso, salvam o disco de cair nas (des)graças do título de "pior do ano". "Never Say Die", apesar de igualmente desprovida de temática, é uma dessas menos más, devido ao seu refrão algo catchy. Por isso mesmo, é a música que se destaca.






of Montreal - White is Relic/Irrealis Mood

Quando uma banda chega ao ponto de celebrar o lançamento do seu 15º álbum, é porque há toda uma história longínqua para analisar. Isto, a não ser que tomemos desafios de lançar 5 álbuns num ano, como os King Gizzard & The Lizard Wizard. Os of Montreal, projeto de Kevin Barnes, foram criados em 1996, e desde aí têm evoluído a sua sonoridade ao longo dos anos, sempre inspirados pelo psicadelismo pop dos anos 60. Contudo, nos últimos tempos, tem existido uma certa estagnação no som dos of Montreal. Álbum após álbum, nada se destaca. Por vezes, há músicas que soam bem, mas a parafernália exagerada de Barnes leva (quase) sempre a que a leve repetição destas canções resulte numa confusa dor de cabeça. Pelo facto de este White is Relic/Irrealis Mood ser mais um arrastamento desse sentimento, ele aqui figura. "Plateau Phase/No Careerism No Corruption" é, por enquanto, a que ainda consigo escutar algumas vezes. Por enquanto, repito...





tUnE-yArDs - I Can Feel You Creep Into My Private Life

Este é dos discos que mais pena pessoal me dá ao colocar nesta lista. Por mais complicado que seja afirmar que algum artista figura nos nossos favoritos pessoais, não posso deixar de referir que penso que os tUnE-yArDs são um deles. Talvez por isto mesmo, a desilusão tenha sido maior. I Can Feel You Creep Into My Private Life não é um mau álbum, mas esperava mais. Esperava porque estava curioso para ver como resultaria a viragem à eletrónica por uma banda que sempre se baseou no uso de loops e sobreposições ritmadas para criar a sua música. "Look At My Hands" foi o primeiro sinal que a banda lançou, e deixou-me imediatamente desiludido. Apesar de ser uma metáfora sobre o whitewashing nos EUA (tema constante de Merril Garbus, frontwoman dos tUnE-yArDs), a nível sonoro parece existir uma falta de inspiração temática, e no fim, este single soa apenas a uma música sem grande destaque na colorida discografia da banda. Há, inclusive, um conjunto de músicas neste disco que andam pelo risco de se tornarem algo "descartáveis" após poucas audições, e achar isto mesmo dá-me muito pena. Dá-me também alguma pena saber que a poderosa banda de suporte do disco anterior (com duas grandes vozes de apoio e uma baterista com instrumentos de percussão africanos) foi substituída por uma banda com menos 2 elementos, onde os ritmos africanos de outrora estão agora enlatados em samples de drum machines. Apesar de tudo, a escolha da melhor canção dividiu-se entre os restantes outros dois singles do álbum, os únicos que conseguem apelar a uma certa vibe revivalista eletrónica. Entre "Heart Attack" e "ABC 123" acabei por escolher a primeira desta questão, e que primeira também é no alinhamento do álbum.





Kanye West - ye

Como qualquer manifestação "artística" ou não de Kanye West, ye foi analisado e escrutinado por milhares e milhares de fãs de tamanha confusa personalidade musical. O problema é que ye é isso mesmo: confuso. "I hate being bi-polar its awesome" é um sinal dessa confusão, e é ponto central da artwork da capa deste disco. Contudo, se como eu, foram ouvir o disco à procura de sinais desta bipolaridade, chegaram à mesma questão: "cadê dela?". Uma bipolaridade anunciada como forma de comercializar disco que depois em nada se materializa em músicas. Já aqui estava a "torçer o nariz". Decidi analisar as músicas não olhando para esta questão. Resultado? Os problemas não desapareceram. The Life Of Pablo foi um álbum estrondoso e esperava um pouco disso aqui, mas tudo soa a morno e sem impacto, e com a progressão do disco vou sentindo também uma progressão do sentimento de confusão e decido: "vou parar por aqui". Não é ye que encanta, nem o tão falado Kids See Ghosts que me encanta também. É triste dizer, mas o maior encanto que tive este ano com Kanye foi mesmo o seu "poopy di scoop".




Textos: Eduardo Antunes


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