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|Album Reviews| - Clarence Clarity numa homenagem sideral

Clarence Clarity - THINK: PEACE

 8,7/10 




Clarence Clarity foi, em tempos, apenas o nome de uma personagem de um famoso meme, mas é, nos últimos anos, mais que isso. É também o nome artístico de um músico e produtor britânico que tem gerado um pequeno culto online, desde que No Now, o seu álbum de estreia, foi editado em 2015.

Para quem não conhece Clarence Clarity, qualquer tipo de descrição não será suficiente para que se perceba toda a sua quirckyness musical. Tentando uma descrição, aponto para um glitch pop que bebe de referências musicais como Britney Spears, Justin Timberlake e esse pop de viragem do século, levando essas figuras para um espaço sideral no qual aliens interferem nas suas auras sonoras. Tudo isto a partir de um quarto em Londres. Nostalgia, futurismo e uma dose astronómica de fantasia, portanto.


No Now apontava para mais de 1 hora de música, contabilizando 20 faixas nesse álbum! Muitas eram interlúdios, mas os dedos das mãos não chegam para contar o número de possíveis singles de um trabalho discográfico que deu a conhecer ao mundo a elasticidade de sonoridades que Clarence Clarity conseguia encaixar num álbum. Porém, em momentos, a parafernália podia-o perturbar de atingir focos mais decididos. THINK: PEACE perde alguma dessa confusão, ganhando linhas musicais mais claras, sem nos retirar da viagem galática que é muito sua. O próprio escreveu no seu twitter, aquando do lançamento deste THINK: PEACE, que pretendia um álbum “mais conciso e direto, mas com extremidades mais fortes – mais experimentação, mas também mais pop”. Muita dessa abordagem um pouco mais direta pode ter vindo da vivência com Rina Sawayama, artista pop nipobritânica da qual Clarence Clarity é produtor e compositor. Aliás, Clarence Clarity é o braço direito de Rina, ela que também participa neste álbum com vozes adicionais em muitas das músicas.


É importante referir que THINK: PEACE foi apresentado como o álbum que Clarence Clarity quis construir através de todas as músicas que foi lançando de 2016 a 2018, as quais estão todas presentes na playlist Leave Earth, lançada no mesmo dia da edição deste segundo álbum do produtor. “CC Wave” inicia o álbum, levando-nos direitinhos a “Adam & The Evil*”, um desses exemplos de música mais concisa no seu sentido pop, mas que termina num polvilhar de sons epiléticos justapostos de uma maneira que apenas os melhores inventores destas colagens musicais, como Igloosghost ou SOPHIE, sabem fazer. Passamos para “W€ CHANG£” de uma maneira fluída, como em todo o álbum, apesar da cacofonia eletrónica. A profundidade da produção de Clarence Clarity é aqui sentida, principalmente nas variações que o refrão apresenta, mas também na sua batida potente que faz abanar decididamente o pé. Chega, através de um crescendo contagiante, “Naysayer, Magick Obeyer”, um dos primeiros singles em versão modificada apresentados neste THINK: PEACE. Esta versão sofre alterações que a tornam menos estática, e por isso a beneficiam. Podemos até dividir a música em 2 partes, sendo que a segunda termina numa mensagem semelhante ao início de um videojogo. Somos bem-vindos, pelo que se ouve, a esta “Clarity Land”, onde “There will be no pleasure; and there will be no pain”. Um retrato simples deste mundo com pouca clareza. Segue-se “Vapid Feels Ain’t Vapid”, juntando-lhe a negativa ao título original. O sentimento é mesmo que a primeira parte da música se inicia com a versão “negativa”, no sentido mais fotográfico do termo, do single original, e que depois esta se transforma – com a tal constante ideia de crescimento deste álbum – na versão original da mesma. 

“Next Best Thing” sucede-lhes com uma vontade triunfal que chega a esticar as fronteiras do bom gosto. Clarence Clarity parece pretender isso mesmo. Há algo de muito corny nesta música, mas parece que Clarence consegue dar sempre uma roupagem interessante e colorida a qualquer música, não deixando verdadeiro espaço para qualquer cornyness que nos relembre, de forma mais declarada, o pop do virar o século. Retira-se daqui também uma mensagem positiva para os fãs do produtor. Ao afirmar que pretende ser a sua melhor versão e não “the next thing”, Clarence parece dizer que poderemos contar com ele durante mais uns tempos, pelo menos enquanto aperfeiçoa essa sua batalha consigo mesmo e com a sua arte.


Pelas contas vamos já na 7ª faixa, a mais de meio deste álbum que, de facto, pode-se apontar como curto, principalmente em comparação com a epopeia de No Now. “Fold’Em/Silver Lake Reservoir” é também uma música já lançada como single, pelo menos na sua primeira parte. De facto, até chega a ser estranho que “Fold’Em” não tenha tido mudanças de maior, com exceção à sua colagem a esta instrumental nova parte “Silver Lake Reservoir”. A transição não é tão bem executada como noutras instâncias deste mesmo álbum. Afinal de contas, “Fold’Em” é uma das mais agressivas músicas de Clarence. “Silver Lake Reservoir” é um etéreo instrumental, mais ligado ao fim de “Naysayer, Magick Obeyer” – o tal “welcome to Clarity Land” – mas também conectado estilisticamente a “Tru(e) Love”, canção que se segue. Na calma que reina nesta música há um conjunto de trocadilhos a reparar. A música fala de uma relação virtual, e no refrão Clarence deixa-nos dúvidas se por vezes diz “you were all mine” ou se diz “you were online” (porque não ambos?). Há também o jogo com o nome da própria música, já que “(e)” equivale, em alguns teclados, a um “€”, naquela que pode ser uma forma subtil de juntar a crítica ao sistema financeiro de pouco suporte aos artistas, sobre o qual Clarence Clarity tem vindo a criar protesto. No minuto final da música somos sugados por um túnel de sons de casino e demais eletrónicas agudas, até chegarmos ao ponto em que sentimos-nos a viajar noutras dimensões por descobrir. Clarence Clarity arranja forma de passarmos de uma pseudo-balada sobre relacionamentos online, para uma veloz espiral sonora sem definição possível. Tudo isto em 30 segundos.


“SAME?” é o nome da 9ª música, e é com essa interrogação que nos lançamos. “SAME”, o single, foi lançado em 2016 como parte do EP do mesmo nome que continha esse mesmo single 5 vezes, por representar coisas diferentes a cada audição, segundo admitia Clarence Clarity. Desta vez, o londrino coloca-lhe a interrogação e, de facto, não faz o mesmo por uma 6ª vez. A destruição, que dá lugar à reconstrução da estrutura musical é aqui, mais uma vez dominada por Clarence. Inicialmente, a música aparenta seguir na direção original, mas os mais atentos poderão notar uma batida diferente que leva a um divertido mash-up entre a originária “SAME” com a original “Naysayer Godslayer”, que neste álbum dá lugar à “Naysayer, Magick Obeyer”. É verdade, uma alegre confusão imparável de nomes, mas também sonora.


“Law of Fives” tem sido das músicas menos bem recebidas deste álbum, mas parece-me um dos melhores exemplos da qualidade deste trabalho. Há todo o revivalismo do pop de 2000, há algo de muito catchy, há o incrível trabalho de produção caraterístico da obra de Clarence Clarity - e em especial deste álbum – e há um triunfalismo que não deixa de ser irónico, mas também sintomático da fragilidade do ser humano com um “I kill people in my dreams” gritado, mas sobretudo, celebrado a plenos pulmões.


“2016”, o ano que marca o início desta viagem pelas novas músicas, é também uma mágica música que começa com sons que me lembram o universo de Holly Herndon, nas suas versões mais serenas. A música evolui para um misterioso “In time, we’ll know” repetido como mote, o que pode ser também uma ideia lançada sobre o rumo do mundo a partir do ano de 2016, nomeadamente com a eleição de Donald Trump nesse mesmo ano. É com esse espírito sombrio que THINK: PEACE brilhantemente nos deixa, talvez pedindo-nos que pensemos neste peça com os olhos de cada um de nós. Afinal de contas, Clarence Clarity disse que esta era a sua versão construída a partir das músicas de “Leave Earth”, deixando de fora muito recém lançadas canções como “Rafters”, ou “1985”. “Leave Earth” parece ser mesmo a derradeira construção de Clarence, ela que tem o simbolismo de, tal como o álbum, ter sido lançada rigorosamente 10 anos depois de, como diz, “my mother Elaine, left Earth”.


Músicas a ouvir: “W€ CHANG£”, Naysayer, Magick Obeyer, “Vapid Feels Ain't Vapid”, “Law Of Fives” e “2016


Texto por: Eduardo Antunes

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