|Album Review| - A virtude cósmica está no meio do videojogo dos Cosmic Mass

Cosmic Mass - Vice Blooms

 6,9/10 


Cosmic Mass - Vice Blooms


O início desta última década trouxe uma onda de seguidores de reinterpretações do psicadelismo. Ora pintando-o de tons mais alegres e vivos, ora mais sombrio e obscuro. Este é um caso que cabe na segunda opção, em que a distorção parece servir uma ideia de conquista de uma batalha triunfal ou de um videojogo, caso sejam mais modernos. No fim? Fica a dúvida se ganhámos ou perdemos, mas pelo menos foram pouco mais de 40 minutos de uma desgarrada psicadélica dos novos tempos. Antes de se chegar ao “game over” do psych-garage, aqui fica um resumo da jornada que é Vice Blooms, disco de estreia do quarteto aveirense Cosmic Mass.






“Mantra I” aparece como se uma manhã de nevoeiro nos cruzasse o caminho, e lá para o fim desta vemos uns raios de sol a tentar rasgar as nuvens. Convictos de esperança chegamos à segunda faixa, “Early a Saint”, cuja melodia da percursão lembra os tempos em que José Cid andava a construir a sua epopeia dos 10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. Desta melodia maturada, segue-se para outra faixa que é igual exemplo dessa maturação – o single “Desert” – mas que até acaba a ser das melhores faixas do álbum, devido à intensidade que é verdadeiramente sentida. Após uns segundos de um quase-silêncio, os Cosmic Mass servem a música mais catchy e contagiante deste disco de estreia. “Starting To Lose My Head” atira-nos de volta para a triunfante jornada do nosso personagem, e lembra uma corrida sem fim, como quem corre a sete pés na fuga a uma catástrofe de qualquer ordem. As pequenas quebras rítmicas na melodia e a aceleração da mesma em direção ao final da faixa, são brilhantes auxílios no triunfalismo que esta música grita e volta a gritar. Começa “Vice Blooms” faixa que dá nome ao álbum, e há alguma tristeza por não ser um segundo take de “Starting To Lose My Head”, tal e qual como naqueles videojogos em que até queremos repetir o nível que acabámos de ultrapassar, só porque foi mesmo divertido. Não nos levem a mal nesta tristeza, até porque “Vice Blooms” lembra os King Gizzard & The Lizard Wizard (e olhem que nem haverão melhores elogios que este) devido ao frenesim de instrumentos entre o garage e o punk. Ainda com alguns ares dos australianos King Gizzard, surge “I’ve Become The Sun”, o primeiro single dos aveirenses Cosmic Mass. A intensidade segue a um nivel altíssimo, e torna-se difícil perceber como é que a stamina dura, neste insano videojogo conquistador. E certamente que, ao vivo, esta música será um dos truques para deitar qualquer casa abaixo. A partir daqui, o videojogo perde algum do entusiasmo. Assim, é no meio deste disco, que soa também a videojogo, que encontramos os melhores momentos. 



Seguimos com a audição do álbum debutante dos aveirenses com “Finally Lost My Head”, que, à primeira vista aponta para a música que mais me cativou até aqui – “Starting To Lose My Head” -, contudo, não se encontra esse túnel mágico à Super Mario, que conecta essas duas faixas. Diriamos até que “Finally Lost My Head” soa a um aglomerado de ideias, nenhuma à qual é dado o neccessário espaço para crescer. Vem, de seguida, “Mantra II” que fica um pouco perdida entre os instrumentais com menos intensidade do que o normal e os vocais pseudo-angelicais. Acreditamos, de qualquer forma, que tenha potencial para se qualificar como grande malha nas atuações ao vivo dos Cosmic Mass, até porque o último terço da música beneficia dos agudos triunfais e quase afónicos de Miguel Menano, e de uma melodia mais ritmada e menos confusa no meio de algumas distorções sem fim. “Burn Out” termina o álbum com intensidade e de forma vibrante. É como aqueles últimos níveis em que nos pavoneamos de barriga cheia, orgulhosos pelo que conquistámos. Pelo meio, temos direito a umas danças celebratórias dentro de um tornado de emoções, e sem darmos conta chega-se ao fim, e em mais de 1 minuto de anestesia musical, não entendemos o que acabou de acontecer. Ganhámos? Perdermos? 



De qualquer modo, podemos sempre voltar a pôr o jogo/álbum a dar, e a deixarmo-nos enlouquecer apenas por mais um pouco, nem que tenhamos apreciado muito mais os níveis do meio do que aqueles que iniciam e terminam a jornada conquistadora.



Músicas a ouvir: “DesertStarting To Lose My Head” e “Vice Blooms”.


Texto por: Eduardo Antunes

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