50 Best Albums of 2020




As revisões de 2020, por mais ou menos subjetivas que sejam, não se podem fazer olhando apenas para dentro. Num ano atípico, que todos esperamos que seja a excessão à regra daquilo que é a vida, a música não parou, apesar dos festivais e grande parte dos concertos planeados terem parado por todo o mundo. É mesmo esse reflexo além portas lusitanas que procuramos fazer neste artigo, apresentando um conjunto de 50 discos, entre longa-durações e EPs, a destacar este ano, excetuando os álbuns do circuito musical português. Escolher destaques, sejam 50 ou até mais, mesmo num ano como este maldto 2020, deixa sempre espaço a omissões e a nomes em falta. Apontamos por isso menções honrosas a nomes como Raveena, Christine and the Queens, Karolina Cicha, Tobacco, Soccer Mommy ou Tkay Maidza.
Eis a lista dos 50 álbuns, ordenados do número 50 ao disco que damos maior destaque deste ano.




50. Gorillaz - Song Machine, Season One: Strange Timez


A ouvir: "Desolé (feat. Fatoumata Diawara)"




49. Polo & Pan - Feel Good EP


A ouvir: "Peter Pan"





48. Moğollar - Anatolian Sun


A ouvir: "Gel Gel D2D Session"




47. The Lemon Twigs - Songs For The General Public 


A ouvir: "The One"




46. Laura Marling - Song For Our Daughter


A ouvir: "Hope We Meet Again"





45. Ólafur Arnalds - some kind of peace


A ouvir: "We Contain Multitudes"





44. Caribou - Suddenly


A ouvir: "Like I Loved You"



43. CocoRosie - Put the Shine On


A ouvir: "Burning Down The House"





42. A. G. Cook - Apple


A ouvir: "Oh Yeah"





41. Donny Benét - Mr Experience


A ouvir: "One Night In Paradise"





TOP 40





40. Khruangbin - Mordechai


A ouvir: "Pelota"




39. Kelly Lee Owens - Inner Song

A ouvir: "Arpeggi"




38. Phoebe Bridgers - Punisher


A ouvir: "Halloween"



37. 070 Shake - Modus Operandi


A ouvir: "Guilty Conscience"





36. Zsela - Ache of Victory


A ouvir: "Drinking"





35. Yaeji - What We Drew 우리가 그려왔던


A ouvir: "When I Grow Up"





34. Charli XCX - How I'm Feeling Now


A ouvir: "anthems"





33. Sotomayor - Origenes


A ouvir: "Nunca Es Tarde"



32. Okay Kaya - Watch This Liquid Pour Itself


A ouvir: "Asexual Wellbeing"



31. Andy Shauf - The Neon Skyline


A ouvir: "Neon Skyline"





TOP 30





30. SoKo - Feel Feelings


A ouvir: "Being Sad Is Not A Crime"




29. Luedji Luna - Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água


A ouvir: "Ain't I A Woman?"




28. Pongo - UWA EP


A ouvir: "Uwa"





27. Celest - Cielos Desconocidos


A ouvir: "Hasta Que El Tiempo No Nos Separe"





26. Ian William Craig - Red Sun Through Smoke


A ouvir: "Weight"



25. Jessie Ware - What's Your Pleasure?


A ouvir: "In Your Eyes"




24. Mildlife - Automatic


A ouvir: "Vapour"




23. Sylvan Esso - Free Love


A ouvir: "Rooftop Dancing"




22. Lianne La Havas - Lianne La Havas


A ouvir: "Bittersweet"




21. Ichiko Aoba - Windswept Adan


A ouvir: "Pilgrimage"



TOP 20




20. The Flaming Lips - American Head



A ouvir: "Mother Please Don't Be Sad"




19. Lyra Pramuk - Fountain


A ouvir: "Tendril"




18. Oneohtrix Point Never - Magic Oneohtrix Point Never


A ouvir: "Long Road Home"




17. Bab L'Bluz - Nayda!


A ouvir: "Ila Mata"





16. Alex Ebert  - I vs I


A ouvir: "Gold"




15. Les Amazones d'Afrique - Amazones Power


A ouvir: "Dreams"





14. Empress Of - I'm Your Empress Of


A ouvir: "Void"





13. Fleet Foxes - Shore


A ouvir: "Going-to-the Sun Road"





12. Buscabulla - Regresa


A ouvir: "NTE"




11. Arca - KiCk i


A ouvir: "Afterwards (feat. Bjork)"






TOP 10






10. Natalia Lafourcade - Un Canto por México, Vol. 1


O novo disco da mexicana Natalia Lafourcade é uma dedicatória ao seu México, mas também uma dedicatória à vida e ao amor. A sonoridade do indie folk pop ficou desta vez de lado para que Natalia pegasse na tradição folclórica mexicana, num misto de versões e originais que pretendem demonstrar ao mundo a riqueza cultural mexicana, que no seu cerne, é transversal a todo o mundo. Talvez, também por isso mesmo, ganhou o prémio de melhor álbum do ano na última edição dos Grammys Latinos. Um álbum que celebra, afinal de tudo, e como a própria diz, a sua religião: a música, o amor.
A ouvir:
 "Ya No Vivo por Vivir (feat. Leonel García)"






9. Sevdaliza - Shabrang


A escuridão que marca a música de Sevdaliza consolida-se em "Shabrang", cujo título remete para Shabrang Bezhad, cavalo da mitologia persa que simboliza a noite. Este é um disco carregado da sensualidade obscura, dessa noite perpétua. A voz luxuosa e hipnotizante de Sevdaliza que acompanha o trip-hop, já tão seu, conduz a generalidade do disco, mas há ainda lugar a delicados arranjos de cordas e teclas de "Joanna", "Lamp Lady" e sobretudo "Gole Bi Goldoon" (cover da música da iraniana Googosh). "Shabrang", a cada minuto que passa, guia-nos num mergulho nas profundezas da dor que motiva Sevdaliza a continuar a construir a sua arte.
A ouvir: "Habibi"






8. Hatari - Neyslutrans


Não é comum salientarmos um disco de artistas que se celebrizaram no Festival da Eurovisão. Porém, os islandeses Hatari são mais do que motivo para abrir a exceção. Neyslutrans reúne um conjunto de músicas e ideias estéticas que o coletivo Hatari tem lançado nos últimos anos, onde se joga com a dualidade entre a voz violenta de Matthías Haraldsson e a voz delicada de Klemens Hannigan (primos e fundadores originais dos Hatari), sobre uma base de techno punk, que por vezes lembra os Crystal Castles na sua versão mais abrasiva. BDSM e crítica ao capitalismo e fascismo também entram nesta mistura, que só se entende, verdadeiramente, o quão contagiosa é, ao se ouvir. 
A ouvir:
 "Klefi / Samed (صامد)"








7. Rina Sawayama - SAWAYAMA


O EP de estreia, "RINA", de 2017 mostrou ao mundo da música que ainda há artistas pop/r&b que têm o pop da viragem do século como maior referência. Clarence Clarity é outro nome dessa lista de artistas, e é dele o trabalho de produção não só nesse EP como neste disco "SAWAYAMA", que consolida essa estética, que é simultaneamente do pasado como atual, e em que se aponta Rina Sawayama como uma diva do "novo" pop, que se quer destimido. A experimentação tem lugar, inclusive, sobre a forma de barulhos de mosh-pits e hinos nu-metal. Rina Sawayama tem marcada a sua estreia em Portugal para a edição do NOS Primavera Sound pós-covid, que esperemos que aconteça o mais depressa possível, concretizando-se o cenário do público ao rubro da décima faixa,  "Who's Gonna Save U Now?".
A ouvir: "Akasaka Sad"







6. Haim - Women In Music Pt. III


A música das três irmãs Haim sempre se pautou por uma certa leveza, mas após as vidas na estrada, nos últimos anos, depararam-se com um conjunto de problemas pessoais, da diabetes, à depressão, ao luto. Há quem diga que a melhor terapia para os momentos mais negros é dar azo à criatividade, e foi isso que aconteceu às Haim. "I Know Alone" e "Now I'm in It" são bangers pop de grande tristeza. "Gasoline", a faixa que, para nós, mais se destaca deste belo disco de pop rock, também assume a tristeza como ponto de partida, também ela uma consequência do afastamento da vida dos concertos em série a que se habituaram, e que 2020 a todos impediu de viver. Até que aconteça o contrário, celebramos o trabalho mais adulto da discografia das Haim, que desejamos que sirva de catarse às irmãs, mas sobretudo a todos que o ouçam.
A ouvir:
 "Gasoline"







5. Yves Tumor - Heaven to a Tortured Mind


Yves Tumor é aquilo que se pode designar de "camaleão musical". A cada disco e a cada projeto, a sonoridade se altera em grande medida. Mas o caos parece ser o fio condutor por detrás de todos esses trabalhos, e nesta versão mais rock (e ainda jazística) de Tumor - a mais apelativa e direta da sua discografia -, encontra-se enorme beleza e até um certo glamour no meio da cacofonia que identifica a sua estética. "Heaven to a Tortured Mind" é um potento de personalidade, poder pessoal e sensualidade, potencializado por belas participações de nomes como Diana Gordon ou Kelsey Lu. 
A ouvir:
 "Super Stars"






4. Lido Pimienta - Miss Colombia


Ao seu terceiro álbum, Lido Pimienta, cujas raízes se dividem entre o Canadá e a Colômbia, arrebata em definitivo os nossos corações, com a sua mistura de tradicionalismo folclórico (a remeter para a cultura colombiana) e vanguardismo synthpop. O seu timbre agudo mas, especialmente, convicto, com que declama a peito cheio desamores e a sua consciência social e feminista, combina perfeitamente com as fortes batidas sintetizadas, resultando num disco que até pode ser visto como de world music, que mais do que esse rótulo, é um disco pop. E é bem capaz de ser o melhor disco pop de 2020.
A ouvir:
 "Eso Que Tu Haces"






3. Perfume Genius - Set My Heart on Fire Immediately


Disco após disco, Mike Hadreas aka Perfume Genius, enriquece a sua sonoridade, até mesmo quando achamos que mais não é possível - "No Shape", que lançou em 2017 foi aclamado nesse sentido. "Set My Heart on Fire Immediately" continua na senda sombria, mas permite momentos solarengos mesmo quando a sua poesia nos conta de momentos tristes - ouça-se "Without You" ou "On The Floor" como exemplos - e um certo triunfalismo delicado nas porções mais emocionantes deste disco - "Jason" é, neste caso, referência. Camadas cuidadosamente justapostas de uma riqueza artística profunda que trazem lágrimas aos olhos, enquanto pedem uma reflexão sobre a delicadeza da vida
A ouvir: "Jason"






2. Sufjan Stevens - The Ascension


O primeiro disco a nome próprio em cinco anos de Sufjan Stevens não nos remete para os seus trabalhos a solo mais recentes, especialmente a sua veia folk de cantautor do aclamado "Carrie & Lowell". Se há comparação a fazer com a discografia de Sufjan Stevens, parece-nos ser com "Planetarium", epopeia espacial colaborativa, com edição em 2017. "The Ascension" tem uma atmosfera sónica semelhante, de uma riqueza de sons e texturas que nos remetem para o cosmos, com um olhar mais pessoal e espiritual sobre a vida e o sofrimento. Se quem já o viu ao vivo lhe conhece uma veia de narrador da apoteóse divina sobre a forma de catarse dos demónios pessoais, não estranhará o quão "The Ascension" parece delineado para cumprir esse papel. As letras invocam a veia católica de Sufjan muitas vezes em crises de fé e existencialistas, que ressoam certeiramente nos corações de quem atravessa períodos mais complicados. Sufjan tenta este diálogo com Deus através de um complexo e ambicioso jogo de camadas eletrónicas e experimentais de um triunfalismo terapéutico. Parece faltar-lhe uma prova de amor maior, talvez do próprio Deus, até porque as questões são muitas, e Sufjan revela-se vulnerável e inseguro, mesmo querendo assumir esse papel de guia comunitário. Para além das batalhas existenciais e de fé de Sufjan, este é um disco que fala de perda, de fim de amor, de crise de identidade de uma forma que é transversal a todos, que certamente desejamos, no fim de tudo, o que Sufjan Stevens expõe de forma simples em "Die Happy", morrer de forma feliz após a bela vida que se viveu.
A ouvir: "Make Me An Offer I Cannot Refuse"







1. Fiona Apple - Fetch The Bolt Cutters


Fiona Apple é uma das mais consagradas cantautores da atualidade. Desde "Tidal", de 1996, que quer a crítica como o público em geral esperam por trabalhos de grande qualidade, sempre com um cunho pessoal de Fiona. Os seus discos nunca soam a desatualizados ou obsoletos. Fiona Apple é sempre atual. "Fetch The Bolt Cutters" é uma nova prova disso mesmo, e é o primeiro disco de Fiona Apple desde que "The Idler Wheel..." foi lançado em 2012. Entre 2015 e 2020, a cantautora americana foi criando e gravando música, à medida que as curvas e contracurvas da vida o permitiam. O espírito de revolta com a sociedade desigual, injusta e patriarcal - assuntos que movem, sobretudo, gerações mais jovens -, e que se manifesta quer nas preciosas letras como nas batidas nas paredes e no chão, aparece aqui de forma brilhantemente maturada. Mesmo assim, este é bem capaz de ser o trabalho mais cru da discografia de Fiona Apple. A própria já descreveu o tópico principal do disco como "não ter medo de falar". Os jogos de palavras e entre as estruturas das canções são brilhantemente construídos como uma artesã musical e letrista. Logo na primeira música, "I Want You To Love Me", Fiona diz "and while I'm in this body I want somebody to want and I want what I want and I want" saltando para cima do simples refrão "you to love me you". Amor, morte, e vários significados pelo meio entre tão poucos segundos. Já a pop-rock de "Shameika" celebra o momento em que a sua bully da escola lhe confessou que via potencial em Apple. Talvez esse momento de honestidade tenha inspirado a americana a falar por si mesma. Esse mesmo tema está exposto em "Under the Table" onde nos conta a história de um jantar requintado em que alguém estava a dizer algo ofensivo, e como a oportunidade não era a melhor para intervir e corrigir essa pessoa, mas mesmo assim Fiona o fez. Fiona Apple quer-nos contar de que ela não se cala e que não nos devemos calar de igual modo. A vida não é perfeita, e deixarmo-nos ser subordinados não nos leva a lado nenhum. Também por isso, tenta encorajar as mulheres em canções como "Ladies", a se empoderarem. No fundo, Fiona Apple mantem o seu sonho jovem de uma sociedade melhor. E se este "Fetch The Bolt Cutters" revela toda a sua angústia e irritação, a verdade é que também é prova de que a esperança ainda não morreu.
A ouvir:
 "Shameika"



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